Quem adotou quem?

“Sua vida vai mudar e você não imagina como…” – disse-me a Dra. Evandra, veterinária das minhas calopsitas, quando apareci em seu consultório com duas cachorras adultas (uma prenha e outra mancando), que não couberam na mudança repentina do meu vizinho. Para a veterinária, a frase profética refletia a experiência de anos assistindo o convívio entre animais e seus humanos. Para mim, a frase soou enigmática.

Eu estava num momento delicado. Alguns meses antes, eu era uma arquiteta/artista/bailarina que transitava por projetos e obras durante o dia e ocupava minhas noites com aulas de cerâmica e ensaios de dança. Até que numa sexta-feira chuvosa de setembro, ao chegar em casa, fui rendida no portão por assaltantes. Foram-se os objetos de valor. Foram-se todos os meus instrumentos e registros de trabalhos de arquitetura.  Ficou a minha vida e a minha capacidade de criar. E afloraram emoções que me fizeram questionar sentidos e propósitos de vida. Ao mesmo tempo, meu lado prático tomava providências para aumentar a segurança da casa e da vida da minha família. Pensei num cachorro, e comecei a pesquisar o universo canino, até então completamente desconhecido para mim. Numa noite de verão, ouvi um caminhão encostar na casa vizinha, a mudança sendo carregada. Pela manhã, só havia uma casa vazia e duas cachorras abandonadas dentro dela, carinhas na janela, assustadas, olhando o incompreensível.

Comovi-me. Cuidei por uns dias enquanto consultava amigos sobre o que fazer. Um novo vizinho mudou-se para a casa, e as cachorras foram compulsoriamente mudadas para a calçada. Comovi-me ainda mais. Abri o portão e as convidei para entrar.  Alegria e gratidão são sentimentos preciosos, e estavam bem ali na minha frente, em forma de cachorro. Batizei-as de Turquesa e Pérola.

Era o começo de uma jornada apaixonante de estudos, aprendizagem, transformações, conexões, parcerias, amizades. E, mais do que tudo, de vínculos profundos com outra espécie. Assisti Turquesa dar à luz seus nove filhotinhos e ser mãe zelosa. Chorei muito a cada adoção de seis dos filhotes, mesmo a razão me dizendo que era o melhor a fazer. Os outros três – Aladim, Caramelo e Cristal – se tornaram parte da família. Pérola virou estrelinha um tempo depois, e lembrar dela me emociona sempre. Pepita se juntou ao time – uma temporária encontrada na porta de um supermercado, que virou permanente. Um ano depois, Pepita encontrou Dom Quixote -um bebezinho de dois meses, perdido numa noite chuvosa, vagando na praça em frente de casa. Por fim, há dois anos apareceu Pequeno Príncipe, abatido, ferido, idoso. Deitou em frente ao portão da garagem e lá permaneceu, com olhar de quem pede ajuda. Era para viver dois meses e após dois anos ele rejuvenesce cada vez mais. Cuidar faz toda a diferença.

A profecia da Dra. Evandra foi acontecendo sem eu me dar conta.

A formação de arquiteta se ampliou para entender as relações de convivência entre cães, e entre cães e humanos. Pensar um espaço a partir do ponto de vista das necessidades e do bem estar de outra espécie é desafiador.  Cães sendo cães num ambiente planejado exclusivamente para eles alegra e nutre a arquiteta que habita em mim.

Arquitetos usualmente possuem uma multiplicidade de habilidades, inerentes (ou não) à profissão, e que acabam sendo incorporadas, misturadas, sintetizadas. Artes visuais é uma delas. Despois do assalto confesso que deixei as artes de lado, mas retomei há pouco tempo num projeto muito especial: ilustrar uma cartilha de prevenção de mordidas de cães em crianças. E assim, profeticamente, minhas artes também começavam a ganhar outros contornos.

Mais uma transformação estava por vir. Desenvolvi intolerâncias alimentares severas e descobri que minha dieta era compatível com a dieta natural dos cachorros. Sob orientação de veterinários, pesquisei e desenvolvi receitas de petiscos para serem compartilhados junto aos meus cães. Para celebrar o aniversário da Turquesa certa vez, levei-a para passar o dia na Ondog, com cupcakes para os amiguinhos. Ali nasceu uma parceria e uma amizade que perdura até hoje. Os cupcakes evoluíram para petiscos e bolos personalizados, cuidadosamente elaborados para marcar datas importantes celebradas na creche ou em casa.

Estranho fazer festa para cachorro? Já pensei assim. Mudei de ideia quando percebi o quanto sou grata pela presença deles em minha vida, e o quanto eles fazem de mim uma pessoa melhor. O quanto sou cuidada, defendida, amparada por eles em momentos difíceis. Não precisa de palavra, nem roupa especial, ou presentes caros. Apenas presença. Presença em forma de carinho, colo, brincadeira, passeio, um petisco feito em casa, um bolo gostoso de aniversário.

Outro dia me veio à lembrança as celebrações que ocorriam na casa do arquiteto em cujo escritório fui estagiária em Curitiba. Eu passava horas admirando a árvore de Natal projetada e construída por ele. Certa vez folheei, maravilhada, um álbum de fotos de bolos de aniversário que ele mesmo projetou e executou junto com a esposa.

Sorri um sorriso largo.

Minha vida mudou, e eu não imaginava como…

Ligia Maria Largura continua arquiteta/artista/bailarina, e desde 2015 faz parte da matilha.

Contato: Instagram @ligialargura
Fone e whatsapp (44) 99942-7122

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