Resgatando Vidas

“Em nossa família, desde muito cedo, fomos ensinados a respeitar a amar os animais. Eu passei boa parte da minha infância na roça e lá nós aprendemos a cuidar dos bichos. Ainda quando criança, eu estudava na Escola Estadual Princesa Isabel, em Terra Boa. Acompanhada dos meus irmãos, eu percorria a pé o trajeto de aproximadamente três quilômetros da escola até nossa casa. Sempre que encontrávamos algum cachorrinho abandonado na rua nós os levávamos para casa, para desespero da minha mãe. Cada dia era um cãozinho diferente e, por algum motivo, eu me sentia responsável por eles assim que os via na condição de abandono e desamparo. Era perturbador a pureza e inocência nos seus olhares.

E a vida seguiu assim e sempre que eu me deparava com a situação de maus tratos ou abandono dos animais, aquilo me incomodava. Com o passar dos anos este incômodo foi aumentando, até que, há aproximadamente oito anos, eu resolvi partir para a ação. Eu precisava fazer algo de concreto pela causa animal.

Comecei dando abrigo na minha casa para animais em condições degradantes de saúde, extremamente debilitados fisicamente e muitas vezes com traumas terríveis. Via de regra esses animais viam os Seres Humanos como carrascos. É indescritível a sensação de vê-los se recuperando, as formas deixarem de ser cadavéricas e ver as pontas de ossos que quase rasgam uma pele maltratada e, por vezes, repleta de feridas purulentas, dar lugar a animais fortes e sadios. É algo que não tem como explicar. Perceber aquele olhar de tristeza de desesperança se transformar na admiração e no amor incondicionais que só os animais resgatados possuem me fez perceber que aquelas pequenas atitudes estavam fazendo tão bem pra mim quanto pra eles. A cada resgate eu me sentia uma pessoa melhor.

Com o tempo o meu engajamento foi aumentando e minha casa ficou pequena para tantos animais e eu comecei a buscar uma maneira de facilitar sua adoção pois alguns animais não possuem um perfil que favoreça que sejam adotados. Os motivos principais para isso são as cicatrizes, a idade e as deficiências físicas. Estas são os excluídos e podemos considera-los como o grupo mais vulnerável dos animais abandonados. E o melhor jeito que encontrei foi justamente como uma facilitadora de adoções, oferecendo para eles um lar temporário, pois um animal saudável, limpo, vacinado e com garantia de castração gratuita aumenta demais as chances de adoção.

Nestes oito anos já consegui doar mais de 200 cães. A média de tempo que levamos para isso varia com o estado de saúde do animalzinho. A média são dois a quatro meses e em alguns casos os lares temporários se tornam definitivos.

Apesar de toda a dedicação, o momento mais difícil é a despedida. É um misto de alegria por ter cumprido a minha missão e poder ver o animalzinho ganhando um lar definitivo, com uma pontinha de tristeza com a partida deles. Mas a tristeza logo dá lugar a uma alegria muito grande porque eu acompanho a adoção por um período e os adotantes me enviam fotos e vídeos do dia a dia que são a minha maior recompensa. É muito gratificante poder ver a felicidade de uma criança que ganhou um cachorrinho e que agora ambos vão se desenvolver melhor. Esta semana aconteceu isso e sou muito grata. Doei um filhote para uma família e a criancinha chorou muito por ter ganhado seu primeiro pet de estimação.

Hoje me sinto realizada fazendo isso, sendo um elo de ligação entre um lar e um animalzinho e a cada doação tenho aquela sensação boa de ter feito a coisa certa e de ter ajudado ambos, as famílias e os animais. E não há recompensa maior do que a certeza de ter feito algo bom”.

Juliana  Maia  Bettini participa do projeto “PetLar Solidário” criado pela prefeitura de Maringá, por meio da Diretoria de Proteção e Bem-Estar Animal (BEA). O objetivo do projeto é que moradores ofertem Lar Temporário, de modo voluntário, aos animais resgatados que foram vítimas de maus-tratos, abandonados ou que estavam na rua e foram machucados.

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